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Energia em dose dupla

Energia em dose dupla

Publicado em
3/25/2022

A cadeia produtiva do carvão mineral, motor econômico do Sul de Santa Catarina, se viu à beira do colapso com o anunciado fim das atividades do Complexo Termelétrico Jorge Lacerda (CTJL), que seria desativado pela então controladora Engie. A continuidade ao menos até 2027, quando terminaria o incentivo à geração a carvão, foi garantida pela venda da empresa. Após a operação, leis estadual e federal estenderam o funcionamento do complexo até 2040, numa reviravolta em relação ao cenário inicial. Jorge Nemr, presidente do Conselho da Diamante Geração de Energia, a gestora dos ativos, conta como será a transição energética prevista nas leis e revela novos projetos em Santa Catarina para ampliar a capacidade da empresa.

Jorge Nemr - Presidente do Conselho da Diamante Geração de Energia

Jorge Nemr: “Se até 2040 houver tecnologia capaz de queimar o carvão com emissões menores, não se pode simplesmente descartar. Quem dá segurança energética é a térmica” - Foto: Divulgação

O que muda com a nova Diamante Geração de Energia à frente do CTJL?
A Diamante já existia (foi criada pela Engie em 2017 para separar e se desfazer dos ativos) e já geria o Complexo. O que mudou foram os proprietários, mas a gestão do dia a dia praticamente não mudou. É o mesmo time. Tem gente que está há 20 anos, 30 anos na empresa, há muitos colaboradores com pai e avô que trabalharam nela. Isso é fantástico, é toda uma cultura. São 375 funcionários diretos, mas todos os dias há mil pessoas ou mais dentro do Complexo. Além disso, são cerca de 20 mil pessoas envolvidas em toda a cadeia produtiva cujo coração é Jorge Lacerda. A gente sente o brilho nos olhos das pessoas com a continuidade do projeto, com a percepção de futuro, de crescimento, de novos investimentos.

E o que muda com a extensão do funcionamento do CTJL até 2040?
Poder ir até 2040 para nós é extremamente importante, como é para toda a cadeia produtiva. Até então, a expectativa de vida era 2027. Seriam apenas cinco anos, o que para o setor de infraestrutura é um horizonte muito curto. O ativo estava muito bem cuidado, a Engie fez investimentos até o último dia, mas a expectativa era mais de manutenção e não de novos investimentos. Agora, com a possibilidade de irmos até 2040, novos investimentos serão feitos, como, por exemplo, a instalação de equipamentos de dessulfurização (para captura de dióxido de enxofre), que se insere no programa de transição energética justa. Também serão feitos investimentos em turbinas e caldeiras, por exemplo, pois equipamentos mais eficientes surgirão. Não íamos contratar ninguém, mas a situação já mudou, pensando no futuro. A Diamante fez uma parceria com o SENAI para a formação de operadores de usina. No dia da abertura de inscrições para o curso (1º de fevereiro) foram mais de 75 inscrições.

Quando a Diamante foi negociada já existia a possibilidade de extensão do prazo?
É claro, mas pode-se dizer que o momento de crise hídrica ajudou o Complexo Jorge Lacerda e Santa Catarina. Se o Complexo for desligado vão sumir 800 MW e não vai ter de onde tirar. Para construir uma térmica hoje com o porte de Jorge Lacerda precisa de quatro ou cinco anos no mínimo, e vai custar uma fortuna. A situação abriu os olhos do Legislativo e do Executivo. O Ministério das Minas e Energia participou, também houve subsídios da Aneel e do Ministério da Economia. Todos foram consultados e avalizaram. Diz-se que térmica a carvão é mais cara, mas o CTJL é uma das usinas térmicas mais baratas que existem. As térmicas são ligadas das mais baratas para as mais caras. Se o CTJL sair (do sistema), tem que colocar outra mais cara no lugar.

Usinas a carvão são mais poluentes e há um programa de transição energética a ser cumprido. O que será feito?
Vou falar da transição para a Diamante Geração de Energia, que tem o CTJL como ativo, mas também olha outras possibilidades em geração. A negociação com a Engie envolveu a transferência do projeto da Usina Termelétrica Norte Catarinense (UTNC, em Garuva, a gás natural). É um projeto greenfield, muito bem elaborado. Já temos a área e a licença ambiental, e na região está sendo instalado o terminal de regaseificação (leia reportagem sobre a Baía da Babitonga nesta edição). O projeto está apto a concorrer em leilões de energia e vamos participar dos leilões A-5 e A-6 (de energia nova, para fornecimento em cinco e seis anos) que serão realizados este ano. Também temos um projeto de usina térmica a gás dentro do Complexo Jorge Lacerda. Tem área, infraestrutura pronta, outorga de água, subestação, conexões e licenciamento para todo o Complexo. É necessário um investimento da SCGás, com quem estamos conversando, para fornecimento do gás no Complexo – é viável porque terão cliente cativo. Vamos entrar em leilão de energia (de reserva de capacidade) com esse projeto também, e graças à condição existente seremos muito competitivos em preços. A transição energética da Diamante vai envolver outras fontes de geração, e a primeira delas é o gás natural.

Qual é o tamanho dessas usinas e o investimento necessário para que saiam do papel?
No caso da UTNC, o projeto licenciado é de 600 MW. Mas, graças a novas tecnologias que surgiram desde que foi elaborado, é possível neste mesmo projeto fazer outra usina dentro, chegando a até 1,4 GW de geração. Estamos correndo para tentar obter licenciamento para a segunda e até entrar com os dois projetos no mesmo leilão de energia. O projeto certo é de 600 MW. Se a gente ganhar – é um leilão, depende de preços, de demandas das distribuidoras –, o investimento (na construção da usina) previsto é de R$ 5 bilhões. Este dinheiro todo não sai da Diamante. Há investidores, consórcios na área de energia, investidores brasileiros e estrangeiros com quem já estamos conversando. Será o maior projeto de Santa Catarina em investimento único. Já a nova usina no Jorge Lacerda é de 400 MW, e com ela vamos aumentar geração em quase 50% no Complexo. O investimento aí é da ordem de R$ 2 bilhões. O maior ativo da Diamante é o pessoal altamente qualificado. Jorge Lacerda foi e é escola para a Eletrosul, Celesc, Eletrobras, Aneel e outros. São profissionais muito competentes e contamos com eles para os demais projetos da empresa.

No CTJL o que mais será feito para redução de emissões?
Estamos estudando, com prefeituras da região, a queima de lixo urbano juntamente com carvão. Outra possibilidade é cobrir o pátio de carvão com painéis solares, situação em que teremos uma usina térmica a carvão sendo abastecida por energia solar. Temos investimentos em P&D e contribuímos com vários estudos junto à SATC (centro de ensino e pesquisa ligado à indústria carbonífera de SC). Nosso foco hoje é investir em Santa Catarina. A receptividade que tivemos aqui foi enorme, e o Estado sempre esteve na ponta em áreas como tecnologia, emprego e meio ambiente. Não tenho dúvidas de que a lei estadual, proposta pelo executivo, para instituir a transição energética justa, será refletida por outros estados.

Em 2040 acabará de fato a geração a carvão ou poderá haver alternativa?
Se até lá houver tecnologia capaz de queimar o carvão com emissões menores, não se pode simplesmente descartar. Não dá para depender só de sol e vento, e mesmo da energia hídrica. Quem dá segurança energética é a térmica. A própria Europa está revendo a questão do gás natural e da energia nuclear (para passar a tratá-los como sustentáveis).

Artigo disponibilizado em: https://fiesc.com.br/pt-br/imprensa/energia-em-dose-dupla

Olivia Rhye
Product Designer, Untitled

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